A Academia Real de Ciências da Suécia anunciou na manhã desta terça-feira (8) os ganhadores do Nobel de Física de 2019, todos na área de astronomia. O prêmio foi dividido entre três pesquisadores: James Peebles pelo seu trabalho em cosmologia e Michel Mayor e Didier Queloz pela descoberta do exoplaneta 51 Peg B.

 ‘Jim’ Peebles, como é conhecido, ganhou o prêmio por suas pesquisas em cosmologia, em especial com a radiação cósmica de fundo. Essa radiação é um resquício do Big Bang. Se o universo tivesse começado a partir de um ponto extremamente quente, ainda hoje essa energia toda poderia ser detectada, mas na forma de micro-ondas. A radiação de fundo foi descoberta por acaso, mas ela confirmou as previsões do Big Bang, consolidando a teoria como uma hipótese muito provável.

As pesquisas de Peebles trouxeram maior entendimento sobre a origem, evolução e conteúdo do universo. O fato do universo ter evoluído nas estruturas observadas hoje a partir da composição entre energia escura, matéria escura e matéria comum é um dos resultados atribuídos a ele. Mas mais importante do que isso, Peebles foi o pesquisador que elevou a cosmologia de um ramo puramente especulativo para uma ciência de fato.

Na década de 1970, quando ele foi convidado a trabalhar nessa área, a cosmologia era muito mais uma profusão de ideias de universo do que uma ciência. Ele mesmo confessou em entrevista que relutou bastante antes de começar suas pesquisas nessa área.

Até então, a cosmologia propunha modelos sem muito compromisso com os dados observados por telescópios. Foi ele que liderou uma nova corrente de pensamento em que qualquer modelo de universo deveria ser capaz de explicar os dados observados. Seu maior mérito foi criar a cosmologia física.

Concepção artística do exoplaneta 51 Peg B — Foto: ESO

Michel Mayor e Didier Queloz foram responsáveis pela descoberta do primeiro planeta fora do nosso Sistema Solar a orbitar uma estrela parecida com o Sol, em 1995. O exoplaneta está a uma distância de 50 anos luz e foi batizado oficialmente como 51 Peg B, ou seja, é um planeta a orbitar a estrela de número 51 da constelação do Pégaso. O planeta está na classe dos Júpiteres Quentes, planetas gigantes gasosos com as dimensões compatíveis com o nosso Júpiter, mas que estão a uma distância muito pequena até sua estrela. De fato, 51 Peg B leva pouco mais de 4 dias terrestres para orbitar sua estrela. Dessa maneira, o exoplaneta, também conhecido como Dimidium, deve ter temperaturas na casa dos 2 mil graus.

Quando esse exoplaneta foi descoberto, a hipótese para a formação de sistemas planetários era que eles deveriam seguir mais ou menos o esquema de formação do nosso Sistema Solar, com planetas pequenos e rochosos mais perto da estrela e planetas grandes e gasosos mais distante. O sistema de 51 Peg começou a mostrar que na verdade nosso sistema é a exceção da regra. Pouquíssimos dos mais de 4 mil exoplanetas conhecidos hoje seguem esse “modelo”.

A descoberta de Mayor e Queloz foi fruto de uma engenharia de alta precisão, com a construção de um instrumento de grande estabilidade, mas também fruto do esforço de monitoramento da estrela 51 Peg por longas e intermináveis noites no Observatório de Haute-Provence na França.

Telescópio do Observatório de Haute-Provance onde foi descoberto 51 Peg B — Foto: I, Gdgourou

Muita gente apostava que o prêmio fosse concedido ao pessoal do HET, que fez a primeira imagem do horizonte de eventos de um buraco negro.

 Mas a academia de ciências não costuma dar um prêmio dessa magnitude para uma descoberta muito recente. Ela prefere esperar que a descoberta ou a teoria seja reproduzida ou confirmada para depois premiar os pesquisadores. Mas mais uma vez a ciência básica consegue o feito de levar esse importante prêmio, numa época em que esse tipo de pesquisa, sem compromisso de fornecer um produto final, está sendo tão desprestigiada.

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Fonte:

G1