A produção de vinhos em Boa Esperança, no Sul de Minas, já não espanta e tem ganhado destaque: no último mês, 12 rótulos do Sudeste brasileiro com tecnologia local, cinco de Minas Gerais, foram premiados na competição internacional “Decanter World Wine Awards”. 

Um dos segredos do sucesso de 11, desses 12 competidores, originou-se no Estado. É a técnica de dupla poda, registrada pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) pela primeira vez em 2005. Ela inverte a lógica tradicional da colheita: em vez de colher as uvas durante o verão, colhe-se no inverno, após duas podas ao longo do ano. 

Difundido no Sudeste, em parte do Centro-Oeste e na Chapada Diamantina, na Bahia, o método propicia vinhos bem encorpados, segundo a enóloga da Epamig Isabela Peregrino. “O inverno tem dias secos e noites frias, o que traz mais qualidade às uvas. Há menos apodrecimento e as uvas ficam com mais estrutura, cor e sabor. Geralmente, os vinhos daqui são mais concentrados, ou gordos, e mais alcoólicos, mas mantendo o frescor”, descreve. 

Os vinhos Maria Maria foram os primeiros da região a ser premiados no “Decanter World Wine Awards”, em 2017, e neste ano chegaram ao terceiro prêmio com a garrafa de tinto Eva Syrah, safra de 2018. A ideia para a produção foi despertada em 2006, após o patriarca da família, de tradição cafeeira, sofrer um infarto e o médico recomendar que bebesse uma taça de vinho diariamente. As primeiras garrafas ainda demoraram, surgindo em 2015.

“Hoje, temos cerca de 25 mil garrafas por ano e 21 hectares plantados, com possibilidade de expandir mais 12. Queremos atingir o máximo de área em cinco anos e produzir de 70 mil a 100 mil garrafas”, estima um dos proprietários da marca, Eduardo Neto. Nas prateleiras de BH, principal mercado da Maria Maria, a garrafa do Eva Syrah sai por R$ 110 a R$ 130, diz Neto. 

A Luiz Porto Vinhos Finos, que foi premiada pelo Cabernet Sauvignon da safra de 2015, também bebe da tradição familiar. O nome vem do patriarca da família, que morreu em 2012, pouco depois da primeira safra de uvas na fazenda em Cordislândia, no Sul de Minas. Hoje, o filho Luiz Porto Junior, gerencia o negócio. Com 15 hectares de plantação e produção anual de 60 mil garrafas, a ideia é dobrar o espaço e o ritmo em 2021. Para facilitar as visitas dos consumidores, o processamento dos vinhos passará a ser realizado na cidade de Tiradentes no próximo ano. 

“Com a alta do dólar e a pandemia, tivemos mais competitividade com nosso vinho. A nossa ideia é abastecer esse mercado que está sedento por vinhos finos e tendo essa preocupação em prestigiar a produção local. Dá muito orgulho tomar um vinho produzido na nossa terra”, comenta Júnior. Em BH, a garrafa do vencedor fica na média de R$ 110. 

Conheça os vinhos com tecnologia da Epamig que venceram a “Decanter World Wine Awards”

A competição “Decanter World Wine Awards” reúne 116 experts em vinhos para avaliar garrafas do mundo inteiro, conforme critérios de cor e sabor, por exemplo. Na edição de 2020, a 17ª, foram avaliados 16.518 rótulos. Eles são avaliados de zero a cem pontos. No total, 62 vinhos brasileiros foram agraciados na premiação, a maior parte deles da Serra Gaúcha, no Rio Grande do Sul.   

Confira as opções vencedoras de São Paulo e do Sul de Minas: 

Medalha de prata:

  • Fumé Blanche Sauvignon Blanc, safra 2019, da Vinícola Ferreira, em Minas Gerais e São Paulo, recebeu 92 pontos.
  • Tempos de Goés Reserva Sauvignon Blanc, safra de 2019, da Vinícola Goés, em São Paulo, recebeu 90 pontos. 

Medalha de Bronze:

  • Espumante Nature, da Carvalho Branco, não-safrado, em Minas Gerais, recebeu 89 pontos.
  • Vale da Pedra, safra de 2018, da Guaspari, em São Paulo, recebeu 88 pontos. 
  • Cabernet Sauvignon, safra de 2015, da Luiz Porto Vinhos Finos, em Minas Gerais, recebeu 88 pontos. 
  • Brandina Assemblage, safra de 2014, da Villa Santa Maria, em São Paulo, recebeu 88 pontos. 
  • Sauvignon Blanc, safra de 2019, da Bárbara Eliodora, em Minas Gerais, recebeu 87 pontos. 
  • Syrah Speciale, safra de 2018, da Casa Verrone, em, São Paulo, recebeu 87 pontos. 
  • Vale da Pedra, safra de 2018, da Guaspari, em São Paulo, recebeu 87 pontos. 
  • Colheita Especial Viognier, safra de 2018, da Casa Verrone, em São Paulo, recebeu 86 pontos. 
  • Vista da Serra Syrah, safra de 2017, da Guaspari, recebeu 86 pontos. 
  • Eva Syrah, safra de 2018, da Maria Maria, em Minas Gerais, recebeu 86 pontos.  

A premiação dos mineiros na “Decanter World Wine Awards” não é a única comemoração do mercado de vinhos no Estado neste ano. O tinto Syrah Epamig, produzido pela estatal, ganhou a medalha de ouro no concurso “Brazil Wine Challenge”, que avalia opções do mundo inteiro. De acordo com a enóloga Isabela Peregrino, atualmente a garrafa pode ser encontrada por cerca de R$ 40 no Empório da Epamig na avenida José Cândido da Silveira, 1.647, no bairro União, região Nordeste de BH. 

Setor de vinhos em Minas vive falta de insumos durante pandemia

Para a enóloga da Epamig Isabela Peregrino, Minas Gerais vai assistir a uma erupção do mercado de vinhos a partir de 2021. “Com a técnica da dupla poda iniciada em 2005, o primeiro vinho comercial da região veio em 2012, mas foi em 2017, com a premiação do Maria Maria, que a história se expandiu, outros produtores conheceram a técnica e começaram a implantar as parreiras. Mas demora três anos para começar a produzir, então há um tempo grande entre essa etapa, fazer o vinho e ele chegar ao mercado. Vamos ver a explosão em 2021 e 2022”, analisa.  

Ainda em 2017, o Insituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) contbilizava pelo menos 111 produtores de uvas para bebidas no Estado. A Epamig não tem um levantamento oficial de quantos produtores se concentram no Sul de Minas, mas o principal entrave para a expansão, diz Peregrino, é a indisponibilidade de mudas para todos, com filas de espera que podem demorar anos e altos preços para trazê-las de fora do país. 

Fonte: o Tempo Online

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